sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sempre estamos olhando para algum lugar.



"Sempre estamos olhando para algum lugar.
Mesmo de olhos fechados".

Esse poema resolvi escrever ou melhor desenhar com um outro tipo de arte que gosto muito.



fotos/edição: André Auke
musica: Allemande - Bach (Victor Yolan)



Obs. Clicando no titulo do poema no vídeo, automaticamente é transferido para pagina do youtube onde a janela para visualizar será maior.

sábado, 30 de outubro de 2010

Uma Crônica Verdadeira.


A verdade é uma grande mentira. Vamos aceitar esse fato.
Na real, a mentira é a nossa grande amiga e companheira.
Sejamos honestos pelo menos uma vez na vida.
Quantas vezes repetimos a bonita frase: “mesmo que doa, eu prefiro a verdade”?
Mentira! Mentira! Pô, você sabe disso, eu sei disso, todo mundo sabe disso.
Mas, mesmo honestamente, querendo dizer a verdade, estamos sempre mentindo.
É ou não é a nossa grande companheira?
É possível que nem mesmo sozinho aí, lendo essas palavras, você vai assumir a verdade. Vai como sempre, e isso é um ato natural, mentir para si mesmo.
Isso não é uma crítica, somente uma constatação.
A coisa é tão celular que o estranho, o que causaria uma comoção, seria a verdade aparecer.
Talvez no decorrer dessa leitura você tenha pensado em alguns ícones, vários nomes de pessoas que para você são verdadeiras. Vou lhe dizer uma coisa: resuma sua lista, mas resuma messssmo, é capaz de sobrar apenas um. Ou nem isso.
Nessa altura você já está achando um absurdo o que eu estou dizendo, né? Uma arrogância! 
Para mim é verdade o que eu disse, mas tudo pode não passar de mentira disfarçando-se de verdade.
Ela é tão poderosa que tem a capacidade de enganar pessoas inteligentíssimas, fazendo-as acreditar que estão sendo verdadeiras consigo mesmas e com os outros. E pior, isso acontece e dá muito certo. Multidões acreditam. É sério.
Nossa grande companheira honesta, que não nos deixa na mão em nenhum momento: a mentira.
Vamos parar de ser hipócritas - é possível que doa menos.
Nunca fomos e nunca seremos.
Quantos trabalhos, quantas terapias, quantas observações, quantas filosofias de bar e de sala você já não fez?
E a nossa companheira continua ao nosso lado.
Tudo bem, não precisa ficar com vergonha ou nervoso. É super natural discordar do que estou falando. Eu pararia de escrever agora e apertaria o botão “DEL”, se acontecesse o contrário. Mas, graças a você, a todo mundo, inclusive eu, tenho razões para continuar.
Alguns aí, vão apelar para santos. Ok, vale tudo. E eu pergunto: Você acha mesmo que os santos não mentem?
Ai, acho que blasfemei para alguns.
Desculpa. Eu esqueci que vocês acreditam que suas religiões dizem a verdade. Foi mal.
Vamos ser mais compreensivos com ela meu povo!
Ela nunca nos trai. Está sempre a nossa disposição. Não seja um ingrato com quem é tão dedicado a vossa pessoa.
Na próxima vez que se olhar no espelho, não finja que ela não está ali, fiel, prestativa só esperando o seu olhar de compaixão e aceitação.
Eu poderia dar grandes exemplos de coisas e pessoas do mundo, mas eu e você sabemos que não vou precisar disso.
Afinal, o papo aqui é mais individual, não precisamos ir tão longe. É só observar o fluxo de seus pensamentos agora. Isso, agora.
Hum, acho que te peguei!
Sinto que não preciso ir mais além.
Mas não tenho como não dizer uma coisa estranha: “Acho que existe alguma verdade em tudo isso”.
Bem, o papo está bom, mas eu e a minha fiel escudeira nos despedimos.
Desejamos uma boa observação do fluxo de seus pensamentos neste momento. Agora.
Mas, se for mais fácil, não tem nenhum problema chegar à conclusão que tudo isso é uma grande mentira. Vai por mim, isso não seria nada estranho.

foto: Jéssica Fogaça.
modelos: Buda e André Auke.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Chá Frio


Clara está debruçada sobre o parapeito da janela, observando as gotas de água que escorrem pela vidraça.
Cartas e envelopes pelo chão.
A chaleira toca na cozinha anunciando que o chá está pronto.
O apito a faz retornar de um lugar distante.
Com a xícara na mão, senta na poltrona e abre um envelope.

São Paulo, 10 janeiro de 1998.

Olá, Pai.
Faz tempo que não temos algum contato.
Nem sei se o senhor de alguma forma, nesses anos, chegou a lembrar de mim.
Imagino que tenha vivido muitas coisas, pois eu passei por várias.
Estou com 30 anos e já sou casada há 5.
Há tempos penso em escrever.
Hoje, sendo uma menina crescida, compreendo melhor e agradeço a sua coragem de assumir uma criança que não era sua.
Quero muito que essa carta o encontre bem, vivendo do jeito como sempre gostou, ao lado da natureza. Coisa que também gosto muito hoje.
Pai, peço o seu perdão. 

PS. Em breve serei mãe, estou grávida.
      Tenho saudades da Rita.

Clara repousa a carta no colo e bebe seu chá frio.
Olha para a janela e percebe que a chuva passou.
Uma lágrima descansa no papel. Manchando o amarelo da espera com o preto da escrita. 


foto: André Auke
modelo: Jéssica Fogaça.


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SER A MARGEM


Estou em luto comigo.
Morre aquilo que não quero mais,
O que não me pertence.
Coisas que não eram para ser, mas por algum motivo estacionaram-se em mim.
Em luto declarado, queimo e espero as cinzas.
Essas as quais com um sopro digo:
- Voltem de onde vieram, sejam esterco para quem queira.
Mas antes da morte faço meu crepúsculo em ordem inversa.
Ando pelos cantos como um marginal.
Meus gritos e sussurros são escutados apenas por mim.
Nem os outros marginais têm ouvidos para isso.
Sou a marginalidade escondida dentro da própria marginalidade.
Existem outros, pois nossas vozes são feitas da mesma vontade.
Mas ainda estamos fadados ao anonimato honrado de um forasteiro.
Cada um em seu beco, ou estradas que sejam.
Às vezes nos olhamos, nos compreendemos e ficamos nisso, apenas isso.
Meu protesto é interno.
Meu luto é comigo.
E agora estou sentado no meu beco velando tudo o que tem que ser queimado.
Vou inspirar toda a fumaça.
E ela ecoara em todos os cantos, caminhos e esquinas.
Mas somente os que estão fora da estrada vão ouvir.
E a esses faço o convite:

Venham comigo velar:
 “O Ser à Margem”.


foto: André Auke.
modelo: Jairo Pereira

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A o A c a s o


Encontrei-o ali sozinho.

Namorando com seus pensamentos.
Sua segunda palavra, a meu ver, foi uma tentativa de venda.
A mercadoria eram seus argumentos, agonias, alegrias, fetiches...
Histórias pequenas e outras grandes, mas histórias.
Assim era ele: um belo contador de histórias.
Em nossa conversa as palavras ficavam soltas no ar como a fumaça de seu cigarro.
Perdíamos-nos um do outro por alguns momentos, quando nossos olhos eram pescados por moças belas que desfilavam pela calçada.
E assim estávamos nos dois: sentados sobre o degrau de uma porta de bar fechado, de frente para uma bela calçada.
Foi deste modo que nos encontramos. 
Foi deste modo que eu o encontrei.

Nosso diálogo persistia em divagar com o nada. Nossa conversa passeava perdida pelo ar.
Mas para alegria de nossos olhos as moças bonitas continuavam a passar.
Estávamos naquela tentativa de achar razões para nossas escolhas, pois eram diferentes das pessoas consideradas normais. Era claro que a cada verbo tínhamos a consciência do preço a pagar e já pagávamos. 
Mas isso não nos tornava especiais em nada, já que os normais também pagam. 
O que muda é apenas a moeda, porque o gosto é sempre o mesmo.

Com um pequeno sorriso no canto boca eu folheava em minhas mãos parte do que poderia ser fragmentos da vida dele. Entre uma folha e outra eu colhia algumas palavras soltas, como um poema concretista e ouvia a música que saia de seus lábios. Eram certezas de sua vida no presente. 
Bonita música.  Não tinha sofrimento, mas era triste por seu distanciamento.

Acho-me engraçado pensando nisso agora. Mas sei que um dia esse corpo ao meu lado morrerá. No entanto, essas folhas, mesmo que com o tempo fiquem amareladas, já são eternas.
Será que ele sabe que esse momento já se tornou meu fragmento? Não importa.

Nossa! Como são bonitas essas moças que passam pela calçada.

foto: autor desconhecido.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Poema de um dia só.


Essa manhã eu fui para um lugar onde eu não estava.
Fiquei por lá, algum tempo. Olhando todas as coisas que não existiam.
Encontrei coisas fora do lugar e outras que queriam mudar.
À tarde fui para um lugar onde eu pensava em me encontrar.
Fiquei por lá um bom tempo.
Espantei-me com as coisas que não achei e como elas conversavam de coisas que eu nunca visitei.
Pacientemente esperei a noite chegar. Várias coisas passaram. 
E aqui estou. Há muito tempo, esperando qualquer coisa passar.




terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sou Alvedrio.


Sou alvedrio, estou no olho.
Dele não saio. Nele observo as veredas, talvez de uma salvação.
Essa que não existe a ninguém.
Estou pasmo com a degustação das desculpas humanas.

Estou no olho, nele mexo e reviro.
Quero ver e sentir algo de vivo.
Algo que não se mostra mais.
Trocaram a presença pela covardia.
Na cara limpa e nem me avisaram.

Nem um e-mail, telefonema, msn, twiter que seja.
Hoje as dores são os símbolos da omissão.
São estrelas que andam em tapetes vermelhos.
Convidados ilustres, aclamados e chamados.

E por que não? Por que seria diferente?
Poder esconder qualquer coisa que você queira?
Então por que não torná-la a dona da sua vida?
Um convite quase impossível de recusar.

Vem, despeja seu ácido corrosivo.
Liquido dessa hipocrisia insatisfeita que é a sua biografia.
De onde está não saberá fazer outra coisa mesmo.
Levante seus olhos na minha frente. Tente.
Pois minhas costas já estão cansadas do seu olhar medíocre.

Outras orelhas estão aborrecidas das suas palavras sem ação.
Olhe-me nos olhos, recite seu verbo em meus ouvidos e você verá pela primeira vez. 
Pela primeira vez você verá um outro mundo.
Tenha coragem e fite os meus olhos e sinta quem você é.

É agora, não existe depois.
Estou no olho e para ele eu te chamo. Guarde sua covardia
Para quando ir ao banheiro. É lá que as merdas devem ficar
E não onde você as coloca neste momento.
Boca de verbos desnecessários.

Perca esse momento e o depois será apenas a consciência.
A consciência tornando-se consciente da sua escolha:
Nasceu homem, mas escolheu viver e morrer Ameba.

foto: André Auke - Paris.

terça-feira, 29 de junho de 2010

PUGNAR *




O mundo anda e eu estou aqui
O mundo grita e eu estou aqui
Não quero saber de nada.
Apenas estar quieto em mim

Não preciso desse barulho
Não hoje, não agora.
Não sairei nem para sorrir, nem para chorar.
Serei velado em cores pastéis.

Todos estão correndo de alguma coisa
Movimentos esclerosados.
Corpos sem paixões.
Talvez corram de si mesmos.

São bonecos expressionistas.
Hipocrisias da moda.
Disfarces de medos e carências.
Tão desconectados.

E nem percebem, nem percebem.
Hoje deito em meu corpo e assim fico
Até o Eu desaparecer.
Sinto-me cansado.

Por isso hoje não saio de mim.
Estou em repouso, sensivelmente em repouso.
Minha respiração quase para.
E assim ficarei.

Volto à superfície quando estiver pronto.
Pois uma batalha me espera.
Com olhos abertos não enxergava.
Agora reconhecerei em mim a própria guerra.

* tomar a defesa de;

foto: André Auke -Gap/França.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Quero você aqui.


Quero você aqui.

Morando nos meus olhos.
Saciando minha sede.
Bebendo meu corpo.
Tragando meu êxtase.

Quero você aqui.

Reconhecendo minha boca.
Traduzindo o que falo.
De pernas abertas e
Olhar de entrega.

Quero você aqui.

Decorando minha carne.
Matando sua fome.
Sem luxurias e melindres.
Sem medo.

Quero você aqui.

Suspirando o meu toque.
Que desliza em desejos.
Abrindo suas vontades.
Acolhendo-te por dentro.

Quero você aqui.

Assim, em febre...
Morrendo em pedaços.
Renascendo em orgasmos.




domingo, 9 de maio de 2010

Equação quase resolvida



Cada vez mais preciso de ação. Cada vez mais preciso do silêncio. Cada vez mais preciso agir. Cada vez mais corro da multidão. Cada vez mais preciso da unidade, mas a divisão manifesta seu nome. O circulo cada vez mais se fecha.
Estou exposto. Eu me coloquei exposto.
Faço as contas: somo alguns pensamentos, subtraio algumas filosofias, divido alguns conceitos e os resultados são sempre alguns padrões.
Engraçado como essas contas sempre dão resultados exatos.
O circulo está se fechando porque ele existe e é natural tudo que existe ter um movimento. Mas o circulo existe porque existe um centro.
Se eu eliminar o centro, o circulo deixa de existir e assim, automaticamente, ele deixa de fechar.
Bimba! Equação resolvida.
Nem tanto, ainda não. Um detalhe: para eliminar o centro é preciso saber como ele surge.
Ele está lá porque eu estou a observá-lo. Se eu não estiver mais lá, será que ele deixa de existir?
Bom, pelos para mim vai deixar e, no momento, nessa conta, não existe outra ser se não eu. Será?
Pois se o centro não existir é porque não existe o observador.
Se não existe o observador não existe EU.

Resultado: equação quase resolvida.



quarta-feira, 21 de abril de 2010

A menina e seus vestidos.


Um dia a pequena menina, vestida de lágrimas, sonhou em voar.
Ser amante do vento, brincar com a brisa. Queria encontrar o entendimento da vida.
Pensou que sendo anjo poderia saltar e assim, com apenas um sopro, toda sua dor sarar.
A pequena menina não respirava, apenas soluçava.
Sentada em sua sala, esperava pelo último fôlego, aquele que decidiria.
E depois, lá de baixo, olhando para o alto procuraria o alívio de sua ação tomada em um momento de susto.
Mas uma voz miudinha dizia de algum lugar apertado:
- Troque o vestido menina.
Olhando o horizonte servia-se de um copo de culpa, beliscava em um prato a família e, jogados aos seus pés, sobrava algumas migalhas de sua vida.
- Troque o vestido menina.
Saindo talvez do intestino, como gente que pede socorro debaixo de escombros, a voz novamente surgia. Mas ela mal escutava. A pequena menina estava embriaga de sonho. Queria dançar sem peso para segurar, deixar suas cordas e saltar, voltar a sorrir e não ter ninguém para cuidar.
De repente, o carpete da sala era uma estrada; a sacada, altar e o parapeito, um Deus lindo e meticuloso.
Ela só queria subir em seu Deus e pular, virar estrela. Pensando assim em se salvar e quem sabe com esse mergulho profundo, encontrar o que tanto procurava.
E agora, de pé no parapeito da sacada, estava prestes a entregar seus sonhos ao vento. Antes, ensaiava alguns passos de balé iguais aos da infância - imagens de uma criança vestida de sorrisos era o filme que passava.
Momentos onde a única corda era a do balanço que, ela mal sabia, era o cupido do seu namoro com o vento.
- Pequena menina vestida de lágrimas, feche os olhos e volte para casa.
E agora parada ali no parapeito de seu apartamento, sentia seu coração pulsar. Lembrava daquele moço que ela tinha vontade de beijar e, algumas gotas no seu vestido, começaram a secar. Olhando ao redor percebeu que não tinha ninguém querendo pular.
Mas era a hora. Precisava tomar coragem. Tinha quase certeza que esse desfecho seria melhor.
Antes, olhou alguns de seus vestidos antigos jogado ao chão: o amarelinho raio de sol, o azul de desbotado sorriso, um vermelhinho com paixão escondida atrás do abajur, tinha até um carinhoso rosa bebê amuado no sofá.
Algumas vozes lá embaixo já diziam: Vem pequena menina, aqui temos o vestido rejeitado.
Ela pensou. Sentiu e decidiu.
Jogou-se. O tempo parou. Ele deu uma pausa para a ação da menina.
E ela acordou, levantou da cama, foi diante do espelho e se viu desnuda.
Sentiu-se completa.
Foi até a cozinha, preparou o café, levou até a sacada e ali flertou com a manhã. Contando-lhe histórias de uma tarde nublada, onde um vestido chorava no corpo de uma falecida menina.

domingo, 4 de abril de 2010

São Petersburgo, 1670


Naquela tarde andei porque foi preciso. Andei porque não sabia que poderia parar.


E enquanto eu andava fiquei observando as formas de como nossas histórias eram perpetuadas, percebi as nuvens que atravessavam nossos caminhos, elas traziam junto de si todo seu frescor, mas também a neblina.
Eu não poderia dizer algo possível de ser dito? Fiquei ali, sentindo.
Sabe, eu poderia ter ido embora a qualquer momento. Quero dizer não o que eu era de verdade, mas sim a parte que você acreditava. Essa sim era mutável, automática. Lembro que seu compromisso era o de ir e vir, sempre.
Isso vem de muito longe, sempre foi assim e não mudará; pelo menos não isso.
Agora ao contrario de antes sinto que o momento pode ser agora, não quero perder o tempo com as sobras.
Existo, mas isso não me basta mais.
Os códigos estão trocados e isso nos faz pensar que estamos vivendo.
Muitos sobrevivem, alguns existem e poucos vivem essa é a verdade.
É preciso escolher. Qual foi a sua escolha?
Pois a minha já foi feita, mesmo eu sabendo que ela já estava pronta, só esperando eu acordar.
Você também pode escolher não escolher.
Isso é fato, isso existe, isso é livre-arbítrio, você pode.
Também sei que posso me enganar com a minha própria escolha, mas assumo pagar o preço desse risco, Alias, já está parcelado.
E você? Assume o seu risco? Mesmo o de não fazer nada?
As coisas não são como parecem ser. Não estou lhe colocando contra uma parede, pelo contrário, estou lhe dando a opção maior: podemos abrir os olhos quando estivermos andando.
Pois se as cores estão aí, por que ficar só no cinza? Não que o cinza não tenha o seu valor, mas podemos mais.
Qual é a cor da sua nuvem, da sua neblina? Você viu a nuvem hoje?
Naquela tarde eu vi as duas e elas não eram diferentes como demonstravam ser.
Foi através delas que enxerguei esse emaranhado de conexões que existe em tudo e como me identificava assumindo umas, descartando outras, refazendo algumas.
E é por isso que resolvi fazer a escolha. Uma hora ou outra isso iria acontecer, eu sei.
Consigo ver isso perante os meus relâmpagos de consciência.
Eu sinto, às vezes como uma interferência, outras com clareza.
Talvez seja ainda, pedaços de uma outra conexão querendo ser refeita, religada, restabelecida, talvez.
Talvez quando eu puder dar a resposta a isso, não seja mais eu.
Posso ir embora a qualquer momento, isso está dentro da escolha.
É bem possível que quando eu tiver a resposta, a pergunta já não exista mais, é bem possível.
Você também está diante de um abismo que ao mesmo tempo lhe dá medo e uma imensa vontade de saltar. Espere a neblina passar e você verá.
Quem sabe podemos juntos reinventar algumas conexões? Ou mesmo desfazê-las.  Na verdade o objetivo é o que menos importa, se é que você me entende.
Mas venha logo, se esse é o meu momento, agora é o seu também.
Talvez tenha que me esperar um pouco, pode acontecer de me encontrar entre uma sessão e outra, coisa rápida, são apenas alguns eletrochoques.
A minha atual casa você sabe, tem o codinome: Hospício.
Foi para cá que me trouxeram, quando resolvi escolher.
Mas não se espante com o estado que me encontrar, não se deixe levar pelas aparências.
Afinal, faz um bom tempo que não nos vemos e depois daquela tarde, muitas coisas mudaram.
Se você conseguir observar bem, não estarei diferente das pessoas que andam pelas ruas, achando que seus olhos estão abertos.

Não, existe sim uma diferença: elas estão bem vestidas...




foto:http://br.olhares.com/caminhando_foto2495763.html

quinta-feira, 4 de março de 2010

Uma conversa com a minha sombra ou (a Dualidade)


Quando estou aqui pensando tudo passa na minha pequena cabeça.

Quantas coisas a fazer, quantas coisas a deixar de fazer; vontades, desejos, realizações.

Para que serve tudo isso? Se quando as realizo (aquelas que são possíveis) a satisfação é uma coisa tão frágil que costuma se quebrar ao primeiro perder do olhar.

É para isso que servem os sonhos? Para correr atrás deles, realizá-los e depois aguardar o vazio, a sensação de voltar ao início sempre? Só mudam as caras.

Mas o mundo aí fora segue assim: a multidão faz isso, vende isso, compra isso, assiste isso. Será que existe alguma verdade nisso? Será?

Eu faço parte da multidão, então tenho que seguí-la, mesmo me achando deslocado dela.

O caminho solitário é mesmo sozinho?

Se a vida quer que eu a siga assim, por que ela me permitiu encontrar uma lacuna em tudo isso? Por que, hein? Por quê?

Aceitar seria o caminho; pelo menos é assim que dizem os mestres.

Mas aceitar o quê? Aceitar o filho da puta que não aceita o meu direito de ser do jeito que sou?

Como seria bom se cada um tomasse conta da sua própria vida! Talvez seja isso o paraíso, hahahahaha.

É, às vezes o caminho da espiritualidade deveria ser mais concreto do que efêmero.

Com Alberto Caeiro aprendo que a diferença está na natureza e não nas cousas. Com meu amigo Quintana, a saída é amar o cotidiano. Já com Clarice, não tem jeito, a coisa é triste mesmo, mas com muita poesia.

Ah, é isso aí. Precisa de um pouco de poesia para sentir verdadeiramente essa vida.

Às vezes me pergunto: Será que o melhor é viver a vida sem razão nenhuma e seguir com sentimentos descontrolados, se enfiando até o talo em tudo que aparece, mas pagar o preço, às vezes caro de sangrar, se machucar grave, mas pelo menos estar íntegro, nem que seja em uma experiência de merda? -
E olha que já vi muitas pessoas fazendo isso. Quantos artistas! Será que isso os deixa mais artistas do que os outros? Será?

A outra opção seria assistir a tudo isso, como uma imagem estática, neutra,
deixando as coisas apenas passarem, sem intrometer, sem interromper. O tal “observar”.

Mas com o preço que às vezes... pode dar aquela sensação de não estar vivenciando nada, sabe?

Parece que o ser humano está muito acostumado com a movimentação, com o opinar, com o julgar, com se enfiar, etc, etc, etc. E o não movimento parece ser uma coisa de outro mundo.

Não me venha com a tal historinha do caminho do meio, que eu vou mandar você tomar no cú. Pois, quando o calo aperta, a única coisa que passa na mente é fechar os punhos e dar um belo soco naquele cara chamado Deus, ou na primeira pessoa que te olhar torto, pois esse é a semelhança daquele. E o primeiro, é difícil de encontrar.

Quantas historinhas, quantas! Você poderia parar de me contar histórias, por favor?! Que eu não agüento mais! Já basta eu e a minha cabeça!

Você está certo em dizer que eu só trouxe questionamentos, mas de qualquer forma, eu não tenho nenhuma resposta.

Para a minha imagem não ficar de um arrogante, vamos fazer um combinado? Tu ficas com a tua verdade e eu com a minha. Assim quem sabe não salvamos o mundo. Mas quem foi mesmo o infeliz que enfiou na minha cabeça que o mundo está querendo ser salvo? Quem?





fonte foto:http://br.olhares.com/dualidade_foto2726563.html

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Aroma


Para você é esse poema
Que de mansinho foi chegando.
Menina meiga com ar de meretriz.
Ah! Como isso me encanta.

Essa boca que me inspira pecado
Onde em meus sonhos acordados,
Já fui teu rei e escravo.
Lábios atrevidos que me deixam louco e safado.

Vejo-me preso dentro dessa armadilha.
Quadril que se movimenta com tamanha maestria
De quem sabe provocar sem vulgarizar.

Meu desejo de homem implora para entrar.
Peço licença, pois quero te visitar.
Conhecer teus encantos, fazer de sua pele minha morada.
Despi-la como se despe uma brisa.

Dançar e beijar teu corpo até a lua nos deixar.
Tornar no agora o que em sonho me excita.
Em nosso suor e sussurros sentir seu sexo como és:
Uma obra prima

E depois quando a primeira luz do dia aparecer,
Trazendo de carona a despedida,
Deixo a promessa já comprida:
Caso meu perfume em seu corpo secar,
Trago mais uma vez a fragrância assim que a noite acordar.

foto: http://br.olhares.com/estudo_do_pixel_em_low_key_foto3373888.html