quarta-feira, 29 de setembro de 2010

SER A MARGEM


Estou em luto comigo.
Morre aquilo que não quero mais,
O que não me pertence.
Coisas que não eram para ser, mas por algum motivo estacionaram-se em mim.
Em luto declarado, queimo e espero as cinzas.
Essas as quais com um sopro digo:
- Voltem de onde vieram, sejam esterco para quem queira.
Mas antes da morte faço meu crepúsculo em ordem inversa.
Ando pelos cantos como um marginal.
Meus gritos e sussurros são escutados apenas por mim.
Nem os outros marginais têm ouvidos para isso.
Sou a marginalidade escondida dentro da própria marginalidade.
Existem outros, pois nossas vozes são feitas da mesma vontade.
Mas ainda estamos fadados ao anonimato honrado de um forasteiro.
Cada um em seu beco, ou estradas que sejam.
Às vezes nos olhamos, nos compreendemos e ficamos nisso, apenas isso.
Meu protesto é interno.
Meu luto é comigo.
E agora estou sentado no meu beco velando tudo o que tem que ser queimado.
Vou inspirar toda a fumaça.
E ela ecoara em todos os cantos, caminhos e esquinas.
Mas somente os que estão fora da estrada vão ouvir.
E a esses faço o convite:

Venham comigo velar:
 “O Ser à Margem”.


foto: André Auke.
modelo: Jairo Pereira

7 comentários:

JAIRO PEREIRA disse...

Caralho! Como estou feliz no dia de hoje, ler isso me fez levitar, e não por ser modelo, é porque de fato as palavras estão em harmonia com minhas palavras e pensamentos... Amizade não é cimento, é nuvem.
LIVRO!!!!!!!

Américo disse...

Assim como tbem. tenho matado o que não quero, renasço sempre que escuto o eco do meu pensamento.
Nesse caso, quase por milagre, o eco veio antes. Parabéns

um abraço,

Anônimo disse...

SURPREENDENTE COMO SEMPRE! BJS....

Bora Matos disse...

Sim sinto o texto pois estou nesse processo, tão profundo de luto, louco isso escreveu o que sinto, sintonia talves, sei la , mas continue traduzindo os sentimentos assim tão lindo que até parece que ja consegue ler a mente de quem lê.

Anônimo disse...

Lindo...adorei o que vc escreveu...bjos

Camila Lemos , disse...

Gosto sempre de vir aqui, a inspiração me consome nessa leitura.
Lindíssimo.

Lucia M. Ghaendt-Möezbert disse...

São tantas mortes de nós mesmos que é como se nunca houvéssemos existido. Cada segundo é uma mudança, cada mudança, um luto às vezes sorridente, mas sempre luto.